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Por que falar sobre o racismo no contexto do yoga?

Depois de um hiato sem escrever no blog, volto com um assunto extremamente pertinente para o momento que estamos vivendo. Poucas coisas me tocaram mais do que a manifestações de #blacklivesmatter nos EUA e toda a repercussão mundial que esse assunto tem tomado. Assim como muitas pessoas, eu também fiz uma imersão silenciosa lendo e me informando sobre esse assunto que é antigo mas tão atual. Eu tenho a pele mais escura, cabelos crespos e odiei isso em mim por muitos anos. Ouvi de muitos amigos e familiares o quanto eu era bonita, se não fosse pelo meu cabelo, ouvi diversas vezes aquela expressão racista de que tenho um pé na cozinha ou na senzala, e alguns conhecidos inclusive duvidavam da minha mãe quando descobriam que o meu pai não era negro. Tive uma tataravó e uma tataratataravó que eram negras, e os genes delas assim como um desejo de mudança e igualdade chegaram até mim. Mas de certa maneira não sofri racismo muito diretamente por ter traços mais finos e não tão característicos.

Hoje fechei uma semana na qual silenciei os meus posts de instagram e usei o meu tempo na internet para ouvir influenciadores negros, ver filmes, ler, ouvir podcasts, e conversar com amigos, familiares a respeito de um assunto que não é tão reconfortante mas absolutamente necessário para criarmos um mundo aonde todxs tenham vez e voz.

Não estou aqui para falar sobre a falta de representatividade negra no mercado de trabalho (em especial dos postos mais elevados), universidades e na sociedade num geral. Acredito que por mais que as pessoas ainda precisem ouvir esses dados, eles já estão em abundância na internet, em artigos e é só fazer uma busca rápida no google para encontrá-los.

Algo que sempre chamou a minha atenção em todos os estúdios de yoga que já pratiquei e ensinei (todos, sem nenhuma exceção) é que o staff e os membros são em sua maioria de pele branca, já parou para perceber? O grande problema com o racismo nos dias de hoje, ao meu ver, é que as pessoas não são mais racistas, ou ao menos não se consideram. As pessoas, em sua maioria, não julgam mais o outro pela cor e eu imagino que se você está aqui lendo esse texto, você seja assim. Muitas das pessoas que me seguem têm essa busca do auto conhecimento, do yoga, e acreditam e sabem que somos todos iguais. Como isso então pode ser um problema? O que ocorre por trás disso é um distanciamento do sofrimento da comunidade negra, nos levando a acreditar que: se eu não sou racista e não escravizei os negros, então não há mais nada que eu possa fazer. Laruga Glaser, em um IGTV brilhante aponta que o grande problema sobre racismo no yoga, é que não é necessário falar sobre ele na prática.

Quando nos eximimos de toda e qualquer responsabilidade pelo racismo que ainda existe nos dia de hoje, nos tornamos neutros em um assunto que infelizmente ainda precisa da nossa atenção. Por ser algo velado, fica muito mais difícil lutar contra ele. Está na hora de entender mesmo que não vendo diferenciação entre uma pessoa branca e uma negra, percebermos que num modo geral os negros ainda sofrem racismo, que eles não se sentem bem vindos em ambientes como escolas de yoga por exemplo muitas vezes por não ter ninguém lá como eles ou por sentirem que o ambiente é elitista. Talvez você ache isso vitimismo, ou talvez seja porque você nasceu com a sorte de nunca se preocupar ou sequer perceber isso. Te digo que ter nascido com essa sorte é um grande privilégio e também responsabilidade para tornar um agente de mudança no mundo de hoje.

Falando com uma amiga minha, ela me disse que teve dois professores negros em toda a vida dela, e que morando nos EUA foi super difícil para ela conseguir um emprego: apenas dois estúdios a contrataram sendo que um tinha uma mulher negra como dona, e o outro foi genuinamente porque a dona do estúdio gostou do seu estilo. Falar sobre esse assunto é sim desconfortável, eu coloquei a mão na consciência diversas vezes essa semana: seguia pouquíssimas pessoas do nicho do yoga que eram negras, não por eu discriminar mas porque por algum motivo elas nunca apareciam para mim! Acredito que adicionar mais diversidade nas nossas mídias sociais já é um começo pois nos traz mais perto, mas com certeza não é o suficiente para ajudar a resolver esse problema. Em especial quem é dono de escolas de yoga poderia procurar mais profissionais negros para atuar no estúdio, ou fazer mais parcerias de workshops, retiros, etc. Se você tem uma marca de roupa, de acessórios, e principalmente se é do ramo espiritual, está mais do que na hora de colaborar com pessoas de cor. Não apenas por serem negros, mas como uma maneira de adicionar diversidade! A beleza do mundo, da vida está justamente nessa diversidade de cores, raças, culturas, músicas, roupas e por aí vai. Eu realmente gostaria de ver mais praticantes negros nos estúdios, retiros e formações de yoga. Ainda não sei como endereçar isso ou como agir para que essa diversidade seja encontrada, mas continuarei buscando.

Em um IGTV uma professora de Ashtanga Yoga, Laruga Glaser, falou por uma hora sobre tudo o que ela enfrentou na sua jornada de yoga. Ela sofre até hoje boicotes e retaliações, mesmo de professores seniors de yoga (o que me faz perceber que eles não aprenderam nada sobre o yoga), e falou diversas vezes sobre como as pessoas davam um pouco de espaço para ela, mas nunca espaço demais. Pessoas com muito menos prática, com menos anos de ensino recebem maior atenção e maior foco do que ela que pratica há 24 anos. Imagina você entrando no mundo espiritual para procurar paz de espírito e auto aceitação e lidar constantemente com desprezo e preconceito. Aquela mesma amiga minha que comentei dos EUA, não está mais dando muitas aulas pois não sentiu que recebeu aceitação no mundo do yoga, que apesar de ser um mundo espiritualista e paz e amor, sentiu mais acolhimento em um outro ambiente profissional.

A comunidade negra tem muitos traumas, carrega séculos de atrocidades no seu DNA, escravidão, sofrimento, estupros, separação da sua terra mãe e de parentes, torturas, e muito mais. De 520 anos de Brasil, 388 tivemos escravidão. Ou seja, há apenas 132 anos os negros são “livres” no Brasil, isso são 3 gerações apenas ou seja: muito provavelmente as minhas tataravós eram escravas ou filhas de escravos. Essa comunidade se beneficiaria imensamente dos ensinamentos e da prática do yoga. Uma prática que nos ensina ao mesmo tempo silenciar, soltar traumas, mágoas do passado e a nos conectar intimamente com quem somos em realidade: infinitos, plenos e felizes. É uma prática que ensina o amor, o perdão, a calma e a satisfação consigo mesmo. Te dá forças para mudar o que pode ser mudado, e um consolo para aquilo que não pode. Imagina que maravilha, se o yoga que foi considerado um patrimônio da humanidade pela UNESCO chegasse até as pessoas que mais precisam dele?

Está mais do que na hora de colocarmos a mão na nossa consciência de verdade e nos perguntar o que eu tenho consumido, falado que não tem contribuído com essa causa e como posso agir a partir de agora para que isso mude? Yoga vai muito além do asana. Uma espiritualidade que não leva em consideração o outro, realmente está fazendo algo por você?

O que fazer, exatamente eu não sei. Algumas coisas que podem ser feitas: seguir influenciadores negros, ouvir o que têm a dizer, se dispor a ter conversas desconfortáveis com parentes que ainda reproduzem discursos racistas, apoiar negócios locais que sejam liderados por essa comunidade, procurar trazer mais diversidade para o estúdio que você trabalha, estudar com professores de cor, e estar muito, mas muito disposto a ouvir com plena atenção. Muito do sofrimento que hoje vivemos poderia ser evitado se ouvíssemos com todo o coração.

Esse post não traz respostas, apenas algumas reflexões. Espero que você leve essas palavras no seu coração.

Que todos os seres, em todos os lugares sejam felizes e livres do sofrimento

Que as minhas palavras, pensamentos e ações contribua para a felicidade de todos

Que haja paz, paz, paz

Namaste.


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